Quinta-feira, 8 de Julho de 2004

Fragmento 2

Acho que por vezes me esqueço de certas coisas, de fazer certas coisas, ou mesmo de dizer, mas nunca sei o quê, mesmo apesar desta sensação de que algo falhou, não consigo perceber o que foi, alguma coisa escapa à minha atenção ou então não estou atento a tudo, como sempre pensei estar.
Passo dias e dias, noites mal dormidas, sempre pensando no que correu mal, ou bem, no que fiz, no que disse, no que ficou por dizer e não encontro nada, nada que não tenha dito, que não fosse melhor ter calado, nunca foi certa a altura, nunca valeu a pena, palavras não dizem tudo, um olhar vale mil palavras, um gesto por mil olhares, um beijo, um beijo muitas vezes não valeu por nada, o sentimento não existia e quando é assim, o vazio apodera-se de nós, passa a ser um acto forçado e sem significado, sem sabor, quase uma obrigação e o sentimento que se segue é horrível, quase de nojo, de ódio, acho que cheguei a odiar-me a mim mesmo, por ser tão fraco, por ceder a todas as vontades acima da minha própria vontade, mas um dia tudo deixa de poder acumular-se, o balão enche demais e explode, nesse dia o céu desaba, todos os segredos mais profundos são revelados, toda a sujidade de uma relação podre e doentia é posta à luz do dia e ás vezes a verdade custa, mas custa menos quando já se sabe dela e é só mais um pretexto para terminar tudo de vez.
Admito que os erros não foram nunca só dos outros, eu errei e erro muito, nunca o neguei, ninguém é perfeito e muito menos eu, mas há erros imperdoáveis, que só são cometidos por quem quer, sem obrigação, de livre e espontânea vontade, como muitas vezes cometi, mas assumi as consequências, não enganei, fui fiel nos meus princípios, detesto mentiras e as verdades são para ser ditas, quer magoem quer não, prefiro sofrer por saber a verdade, do que sofrer por viver na dúvida, ou viver uma mentira, é bem pior, mais triste, faz-nos perder a confiança nas pessoas, não só numa, mas no geral, começamos a julgar todos pela mesma regra, sem ouvir, sem abrir o coração, sem conhecer, sempre com medo do mundo, criando uma jaula em volta do coração, até senti-lo frio como uma pedra, para não deixar escapar nem deixar lá entrar nenhuma emoção, nenhum sentimento. Uma vida triste, sem sabor, sem cor, sem alegria, sem amor, insípida, sem qualquer razão de ser, sem sentido, sem tantas outras coisas que tornam uma vida merecedora de ser vivida, ninguém vive para sempre e se não aproveitarmos a vida enquanto a temos, depois será tarde demais, o tempo não pára para ninguém e muito menos para os que não vivem, que deixam tudo passar-lhes ao lado, ao longe, mas tão perto que quase lhe podem tocar, mas não esticam o braço, demasiado passivos, estáticos, sem vontade própria ou com vontade de não ter, não viver, só deixar passar, andar, correr os dias, as noites, os anos até fecharem os olhos e um vazio, ainda maior do que as suas próprias vidas, os invadir para toda a eternidade, sete palmos abaixo de gente que respira a vida, que lhe dá sentido e a tenta tornar suportável.
Gente que deixou de ter medo, que resolveu tentar, arriscar, porque todos os sentimentos são diferentes, todas as relações são distintas e quando não se arrisca com medo de sofrer novamente, não estamos a ser justos com os outros, estamos a deixar escapar oportunidades únicas na vida e estamos acima de tudo, a deixar de sonhar e de viver e a impedir os outros de viver e sonhar connosco.


publicado por Angel-of-Death às 20:43
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