Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

Fragmento 2 – Só eu, só…

Sou uma criança mimada, mas ás vezes nem tanto, falta-me amor, não é só de vontades e de mimos que alguém consegue viver emocionalmente estável.
Tenho acessos de loucura, loucura temporária, não sei com quem falo e como falo, magoo tudo e todos, faço disparates, aprendo a amar em minutos. Preciso de amor e procuro-o, mesmo onde ele não existe. Confundo todos e a mim mesma, sou o maior inimigo de mim, vivo ás vezes só para me magoar, para me mostrar que consigo sentir, que não sou de pedra, que não sou fria, mesmo quando me aturam com toda a neve do mundo.
Vivo os problemas dos outros que também são meus, não fujo de nada, sou forte e choro, sou forte e caio por terra, desterrada, infeliz e miserável, porque não consigo fazer com que se gostem, não consigo remendar o que está mal. Estou frustrada, estou mal e não sei que fazer, mostro tudo aquilo que não sou, vivo sozinha dentro de mim, amo sem saber porquê, e fujo, deixo que tudo fuja de mim, porque não me consigo agarrar, não consigo ter nada só meu, não consigo entender porque tem de ser assim, e no entanto não quero nada de outra maneira.
Amo, sim, amo baixinho, sem ninguém saber, amo quem não me ama a mim, amo quem me ama e só me faz sofrer, magoa-me com o seu sofrimento, e não consigo mais sofrer, grito por ajuda e ninguém me ouve, grito por ti e não estás lá, nem podes estar, nem quero que estejas. Não é mais por isso que sou assim, sou o negro e sou o sol, sou a lua e o mar, sou uma criança ainda e preciso de te amar, não sei como, nem porquê, mas preciso de ti, como tu não precisas de mim. E eu continuo, contigo a meu lado e sem saber de ti, contigo tão perto e sem te poder tocar, continuo, em direcção a nada, em direcção a ti, sempre contigo e com tudo e que amo, mas sozinha, sem saber mais porque estou aqui, sem saber quando me perdi, sem saber qual o caminho a seguir, se mais me aproximo ou se me afasto, continuo eu só, só aqui, tão perto de ti, e tu tão longe de mim.
Sim, nunca te vi partir, nem nunca te vi deixar de chegar, nunca fiquei sem ti, nem te tinha para ficar, fico só sempre sem tudo, parece que vou perdendo tudo pelo caminho, quando nem sem que caminho percorri, não sei mais onde fui e de onde vim. Fiquei só eu, só…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 17:51
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Fragmento 4 – Nunca sou eu…

Só depois de começar a escrever sobre as mulheres, me dei conta do quão complicado eu sou, nunca me tinha apercebido de que era tão possessivo, não no que diz respeito a ciúmes, claro que também os tenho, mas sim em relação aos meus amores passados, porque me apercebi que mesmo depois de terminadas as relações, continuo com ciúmes, continuo a achar que deveriam ter-se mantido fies ao sentimento que existiu, mesmo eu não sendo, ou não tendo sido. Sei que não tenho esse direito, mas não o consigo evitar.
Sempre achei que amei todas, à minha maneira, amei cada pormenor que as distinguia, por coisas as vezes até insignificantes, mas que para mim fizeram a diferença. Assim sempre foi fácil eliminar os defeitos, simplesmente ignorava-os, só quando eles se tornavam mais visíveis, aí o meu interesse diminuía, e voltava a procurar alguém, que voltasse a despertar algo em mim
Acho que foi sempre uma espécie de mecanismo de defesa, nunca me abri por completo com nenhuma delas, aquilo que julgavam saber sobre mim, eram coisas que ouviam, ou que observavam, algumas conseguiram compreender-me, outras pensaram que sim, mas estavam enganadas, outras disseram conhecer-me, mas não podiam estar mais longe da verdade, quanto mais se esforçavam para me compreender, conhecer, maior era a mentira dentro das suas cabeças, eu sempre fui um livro aberto, para quem realmente estivesse interessado em ler, mas raramente alguém se interessou por isso, preferiam fantasia, ideias, amores perfeitos e sem mácula, amores impossíveis de serem vividos. Ou preferiam usar-me, servir-se de mim e deitar fora, preferiam não deixar ligações, a única coisa que deixavam era a roupa espalhado pelo chão, partindo depois, como se eu não existisse senão para isso, prazer, tirar prazer de mim. E o meu prazer? E o meu amor? Onde está isso?
Sou talvez uma pessoal terrível, terrivelmente posta de parte, sem que me dêem o devido valor, o devido amor. Talvez porque eu sempre neguei esse amor, com medo de me magoar, mesmo quando me entregava de alma e coração, nem mesmo assim a realidade era essa, nem sempre consegui fazer com que me compreendessem, nem sempre quis ser compreendido, a compreensão acaba com o suspense, com a magia.
E tudo isto acaba comigo, sempre comigo, que vou arrastando a minha existência, por este corpo usado, estes farrapos que me cobrem viveram dias intermináveis de sofrimento e alegria, arrasto o meu corpo pelo chão, enquanto me esvaio em pensamentos e lembranças do que não fiz, do que não passei. Afogo-me numa vida que não é minha, e caio por fim, derrotado por alguém que eu imaginei, porque não sou eu, nunca sou eu…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 17:22
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Fragmento 5 – Para mim, por ela, para ela

Manhã, sol, dia azul, claro, ainda cedo, uma brisa soprava do mar, fresca, entrava pela janela do quarto que tinha esquecido aberta na anterior, como que chamando-me, acordando-me para a vida. Rapidamente me levantei, ainda descalço e só de calças de pijama, roupa que uso de verão, se é que uso alguma, saio para a varanda e logo o odor do mar entrou em mim, a maresia intensa daquela manhã impelia-me para sair de casa.
Assim o fiz, de prancha na mão, depressa desfiz a pouca distancia que me separava daquela areia branca, o mar estava lindo, de um azul tão profundo que se fundia com o próprio céu, ninguém que ali estivesse nesse momento conseguia distingui-los, a ondulação calma, mas constante de cerca de um metro, estendia-se por várias dezenas de metros, excelente, pensei eu. O sol estava já bastante quente, não senti necessidade de vestir o fato, somente de calção, como o faziam os primeiros bodyboarders, quando ainda não havia nada de tecnologia aplicada a este desporto.
Entrei, a água estava óptima, não era normal naquela época do ano, raramente temos água quente aqui no norte, remei, remei, até á linha de rebentação mais afastada e maior, e lá fiquei, onda após onda, esperando a onda perfeita, a minha onda, e cada vez que apanhava uma, era sempre a mais perfeita, mas há sempre melhor, maior. Saí algumas horas depois, já devia ser perto da hora de almoço, sentia o sol cada vez mais quente nas minhas costas nuas. Foi quando a vi, e que visão, nada mais bonito que um artista desenhando o mar, não resisti, tinha de ver o desenho, e conhecer aquele anjo que o pintava.
Assim, pousei a prancha na areia e dirigi-me a ela, apresentei-me, o seu nome era Marta, Marta a pintora, que tinha decidido seguir arquitectura em vez da sua verdadeira vocação, as artes, porque o dinheiro vem primeiro, o vil metal, mais importante que a própria felicidade, quando o seu propósito é tornar-nos felizes e não seus escravos, de que serve se não nos trás satisfação. Mas ela era assim, e de repente já não era o desenho que cativava, era ela, o seu rosto moreno do sol e aqueles olhos cor de mar, um verde tão azul, os lábios cor de cereja madura, que tanto me apeteceu colher logo ali, naquele instante. Ela era do Porto, uma cidade que conheço bem, também eu lá estudava naquela altura, ou melhor, fazia que estudava, porque nunca foi vocação minha, a arte de marrar, apesar de me agradar bastante a leitura, não era bem desse género. Conversamos durante quase uma hora, eu sempre tentando saber mais e ela curiosa para saber de mim. Acabei por saber que ela passa férias cá, há já alguns anos, ali mesmo na minha terrinha e eu nunca a tinha visto, sabia bem mais sobre mim do que eu sobre ela, a minha fama de “playboy” era um pouco conhecida pela praia, muito bons momentos passei eu naquela areia, até mesmo com mulheres que nem conhecia, sobre um luar de prata, com o mar como cantor e as ondas a sua orquestra, que melhor ambiente poderá haver para os devaneios, de mentes e corpos jovens com as hormonas a fervilhar.
Fiquei bastante embaraçado ao saber que ela sabia de algumas histórias, por intermédio de amigas, com quem eu já tinha partilhado os momentos mágicos, no meu leito de areia. Para me desculpar, ou talvez não, pelos meus actos passados, decidi convidá-la para almoçar comigo, podia terminar o desenho da minha varanda, que tinha uma vista privilegiada. Decidi que iria cozinhar para ela, já que cozinhar é uma das minhas paixões. Antes mesmo de fazer o almoço, tinha de mostrar-lhe onde podia desenhar, então fui mostrar-lhe a varanda. Foi o meu maior pecado, mas também o mais doce, quando nos encontramos os dois na varanda, e os nossos olhares se cruzaram, foi como magia, e logo os nossos lábios se quiseram tocar, e como o gosto daqueles lábios ficou na minha boca, até um outro beijo se seguir, e mais outro e outro ainda, até se tornar um vício, e as nossas bocas não conseguirem mais descolar-se, nunca irei esquecer aquele sabor, aquele cheiro o cenário mais perfeito alguma vez criado para mim, mesmo que sem querer, sem ser essa a intenção, acabei por encontrar algo inesperadamente bonito. Naquele momento não se passaram mais do que simples beijos, trocas de olhares, vontades reprimidas, era cedo demais, ambos queríamos fazer durar o momento, tudo corria depressa, os olhos, os corações, a nossa urgência. Não avancei mais, deixei a calma instalar-se por momentos, tentei fazer qualquer coisa para o almoço, mas nada saía direito. Ela não conseguia terminar o desenho e resolveu juntar-se a mim na cozinha.
A nossa fome era outra, a nossa urgência em matar essa fome foi mais forte, passamos a tarde enfiados na cama, sorrindo das pequenas loucuras, das carícias, de tudo o que nos fazíamos, sem pensar em mais nada. Talvez tenha sido essa pressa, essa vontade de não esperar que nos uniu, e durante muito tempo, mesmo quando passavam semanas sem a ver, ela voltava, sempre sem perguntas, sem respostas, voltava com o seu amor incondicional, talvez o único que conheci, talvez ela tenha sido quem melhor me conheceu. Nunca me exigiu em troca do seu amor, nada mais que a minha presença quando ela voltava, e eu não soube ser assim, não consegui ser para ela, o que ela foi sempre para mim.
Agora que já se passou tanto tempo, consigo olhar para trás sem mágoa, sem sentir nada, apenas sorrio, lembrando-me de tudo o que de bom ficou. Ela um dia partiu, e nunca mais voltou.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 17:20
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005

Fragmento 6 - Como antes

Vens descalça, despida, despida também de mim. Onde está a paixão que via nos teus olhos, nos meus, onde está o amor eterno que juraste, onde está o desejo de mil noites de fogo, em que saudamos o novo dia com um beijo, selamos o nosso segredo com um olhar, fingimos nem reparar, as horas passam e sinto um nunca me fartar de ti, o dia não passa e as horas não correm, aqueles momentos que pareciam eternos enquanto nos amávamos. Quando? Diz-me quando tudo isso se foi!
Diz-me que estou errado, que não te vejo ainda em todo o lado, diz-me que tudo isto não morreu. Mostra-me quem fui, quem sou, mostra-me o que de errado se passou, porque não vimos tudo cair, como não notamos a vida a fugir. Por entre os dedos, deixei que levasses meu coração, minha mente, meu corpo, tentei dar-te tudo o que de melhor eu sabia, e para quê, o meu melhor nunca foi suficiente, nunca foi o ideal, e não precisava de o ser, talvez mais original, diferente, mas não sei ser assim, só sei ser eu, o eu por quem te apaixonaste, por quem te consumiste loucamente de paixão. Talvez tenha sido somente isso mesmo, uma paixão louca mas sem futuro, passageira, como um incêndio, intenso, quente, abrasador, queimando tudo por onde passa, mas extinguindo-se tão depressa como começou.
Agora vens para mim despida, despida de mim, sem razão aparente, deixas-me sozinho, vestes o manto de luz dos teus olhos e sais, pela mesma porta que te viu entrar da primeira vez, sais do meu mundo, da minha cabeça, deixas tudo espalhado, partido dentro de mim, como um tornado, viraste a minha vida do avesso, senti o calor do teu abraço, o último, não, talvez não.
Olho o tecto, sozinho, frio, branco, sem sinal de ti, perdido no meu olhar, no meu sentir, imóvel, ainda sem acreditar, não acredito, perdi, o jogo da minha vida perdi, sinto-me perdido, na confusão de imensos sentimentos que não consigo distinguir, não me consigo lembrar porque estou aqui, que força de gigante me derrubou, a mim, logo a mim que ninguém derruba, eu, tão forte e tão seguro, vejo-me agora deitado por terra, mergulhado numa escuridão profunda, como se um camião me tivesse passado por cima, não sei mais o que pensar, o que dizer, não sei mais.
A porta abre. Uma voz no fundo do quarto, perguntas-me se ainda te quero, se ainda te amo, dizes-me que não sabes o que te deu, o que aconteceu, porque me trataste daquela maneira, porque fugiste de mim. Não, não digo nada, fico quieto sem reacção.
Vens, vens agora para mim, despida e eu despido de ti, queres que tudo volte a ser como antes, abraças-me, beijas-me com a mesma paixão de sempre, com o mesmo fogo, tiras-me a pouca roupa que ainda tenho, pousas o teu corpo nu em cima do meu, sinto-me ser elevado, a minha alma sobe no quarto, vejo-me fazendo amor contigo, durante horas, sinto só o teu amor, o teu desejo, a tua insaciável fome de mim, tudo mudou, tudo se alterou dentro de nós. O prazer chega intenso, depois suave e novamente intenso, como antes, mas o antes já não existe. Cais exausta a meu lado, pareces feliz com a tua escolha, o sopro do prazer vê-se no teu rosto, o brilho dos teus olhos deixa transparecer o sentimento que te invade, o desejo volta, e mais uma vez sinto os teus braços, os teus lábios tocarem os meus, quentes, húmidos, como antes, voltamos a fazer amor, mas eu não volto a sorrir, não volto a beijar, o meu coração ficou frio, duro como diamante, uma pedra preciosa que um dia foi tua, mas não mais.
Deitas-te a meu lado despida, eu levanto-me despido de ti, e sem uma palavra, visto-me, tentas dizer-me algo, fazer-me sentir como antes, mas eu saio pela mesma porta que te viu entrar.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 14:09
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Fragmento 9 - Um sonho meu...

Pensei escrever algo bonito, que mostra-se a alegria de viver que me vai na alma, a alegria de amar, de me sentir amado é quase surreal, como um sonho, ou é um sonho, mas tão real que o posso sentir, tocar, cheirar, até mesmo sentir-lhe o sabor e ela própria é um sonho, o meu sonho, o sonho de um dia encontrar alguém como ela, é claro que nunca pensei que ela ia ser tão nova, mas o meu coração não sente essa diferença e penso que o dela também não.
Quando estamos juntos o tempo pára, o sol não deixa de brilhar, a água deixa de correr, somos só nós numa redoma de cristal e o mundo todo cá fora deixa de se ouvir, deixa de ser importante, desaparece como que por magia e o sol brilha só para nós. Sentimos o fogo ardente, da paixão que nos consome a alma, um sentimento tão intenso, que surgiu de uma simples amizade e evoluiu, cresceu e se tornou no imenso amor que sinto agora, amor que me aquece, que me conforta, que me alegra, que me ocupa o pensamento e não dá espaço a mais coisa alguma, que me entristece, por breves momentos, quando penso que não podemos vivê-lo, da maneira que mais gostaríamos, mas um dia, um dia o nosso amor será livre, mas será só nosso, enquanto ela assim o quiser, enquanto ela me quiser amar eu vou amá-la e mesmo quando ela não mais me quiser, vou continuar a amá-la, porque só se encontra o grande amor da vida, uma única vez, e eu, depois de tanto procurar, encontrei-o nos olhos dela.
Olhos tão profundos e que me parecem tão sinceros, tão cheios de vida e de amor, olhos que parecem adorar-me, e cada vez que olha para mim, cada vez que me diz, que tem a certeza que eu sou o homem da sua vida e a certeza com que o diz, deixa-me feliz, só com a sua presença, o seu sorriso, a sua expressão quando não sabe o que fazer ou dizer, ou então até sabe, mas não sabe se deve.
Adoro todas as coisinhas pequenas, todos os gestos, todos os beijos me sabem a pouco, o toque da sua pele, a língua que me provoca arrepios, o seu corpo quente, até aquele piercing no umbigo, com o qual não paro de brincar, sei lá, adoro adorá-la, adoro sentir-me assim e saber que ela também o sente, adoro fazê-la feliz, acho que a faço feliz, pelo menos tento, dentro dos possíveis…
Adoro… Não sei mais o que dizer... Adoro adorar…
Não quero, não quero mais acordar…
Não quero mais que seja só um sonho, já não quero estar a sonhar. Mas o dia chega…

By: Angel-of-Death
In: "Oespelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 12:55
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Fragmento 8 - Tão minha...

Olho-te, deitada a meu lado, dormindo como um anjo, toco suavemente o teu rosto, sinto a tua pele macia nos meus dedos, a tua pele jovem e sem marcas do tempo, não me canso de te contemplar, nunca estive tão perto de um ser celestial, uma deusa dorme na minha cama, tão perfeita a meus olhos, tão cheia de vida, tão jovem…
Agora tento recordar-me de como tudo começou, vem-me à memória a imagem de quando te vi pela primeira vez, num bar, eu estava com uns amigos e a minha ex. namorada, tu com um grupo de amigas, todas mais ou menos da tua idade, mas algo em ti me chamou a atenção, talvez a tua pele morena, os teus olhos negros ou o teu ar de indígena, agora nem sei bem, mas parecias uma indiazinha, saída de um filme, reparei que trazias um colar igual ao meu, achei que provavelmente tivéssemos o mesmo gosto por culturas índias, porque pouco depois reparaste também no meu colar enquanto dançava.
Não queria acreditar quando te vi aproximar, sussurraste-me o teu nome ao ouvido, senti um arrepio percorrer-me o corpo todo, não acreditei que tinhas falado comigo, e muito menos quando chamas-te o meu nome, sei que não to tinha dito, aliás, nunca te tinha visto antes. Só mais tarde vim a perceber, uma das amigas, que era afinal irmã dela, era uma ex. namorada minha, com quem tinha passado bons momentos e de quem tinha boas recordações, esperava que ela também tivesse. Continuei a dançar e tu cada vez mais perto, podia sentir o calor do teu corpo, quase colado ao meu, deixei de ligar a tudo o resto, éramos só nos dois ali, naquela pista de dança, cada vez sentindo mais o teu corpo roçar o meu, olhei em volta, os meus amigos continuavam lá, e a minha namorada olhava-me, com cara de quem me queria espancar, e eu apesar de tudo não liguei.
Só parei de dançar, quando a tua irmã te veio dizer que ia embora, sem eu pronunciar qualquer palavra, disseste-lhe que só ias embora comigo, ela acenou que sim, despediu-se de mim e saiu. Atrás dela saíste tu, pedindo-me que te seguisse, como que hipnotizado acedi ao teu pedido, sei que não o devia ter feito, mas deixei os meus amigos e a minha namorada e fui até a praia, seguindo-te, como se aquele fosse o único caminho, a única verdade.
Quando paramos em frente ao mar, o transe passou, vi o luar iluminar-te o rosto, a lua cheia enchia de prata toda a praia, como num sonho das mil e uma noites, em que o nosso castelo de prata e pedras preciosas era a praia, o mar e as estrelas. Disse-te que não sabia porque estava ali, que não devia estar ali, mas a tua resposta agradou-me demais, se eu ali estava, é porque tinha de ali estar, era o nosso destino a chamar por nós, era o canto daquela sereia que me fazia perder o controlo, era o seu perfume de flores frescas de Primavera, e nem todo o frio da noite nos dissuadia, nada nem ninguém nos podia tirar aquele momento, aquele primeiro beijo, terno, quente, molhado, o brilho dos teus olhos, que pareciam duas pérolas negras, o toque suave da tua pele colada na minha, os teus braços que me envolviam o corpo, a alma, e todo o meu ser ficou nas tuas mão nesse momento.
Perguntaste-me se acreditava em amor a primeira vista, naquele momento fiquei a ser crente fiel da teoria, sorriste, voltaste a beijar-me, aproximaste-te do meu ouvido e disseste baixinho que acreditavas, sim, acreditavas que te tinhas apaixonado por mim nessa noite e pediste-me para te amar, para te fazer sentir o meu amor, nem que fosse só por uns momentos.
Como fomos loucos, fazendo amor pela praia, cobertos com nada mais que as estrelas, deitados na areia cor de prata do luar, sem nos importarmos com nada, com mais ninguém. Levei-te comigo para casa, não querias separar-te de mim, abracei-te forte enquanto tomávamos banho, era hora de nos vermos livres da areia da praia, deixei-me ficar só, só abraçado a ti, sentindo-te minha, contemplando o teu corpo, tão bonito, tão jovem, tão perfeito. Deixei a água lavar todos os pecados, todas as tristezas que nos iam na alma, que nos cresciam dentro do peito, naquele abraço que parecia não ter fim.
Quebraste, o abraço dissolveu-se, beijaste-me com muita força, choravas, dizias que não conseguias entender, que não querias entender, mas que não podias ficar sem mim, tive vontade de rir, apesar de não ser a altura própria uma gargalhada saiu, ela olhou para mim não acreditando, acalmei-a dizendo que não era possível ela ficar sem algo que lhe pertencia, logo sorriu, beijou-me e vestiu uma camisola minha que lhe ficava enorme, mas tão linda, ela deitou-se ao meu lado, sorriu para mim, beijou-me e abraçada a mim adormeceu.
Como hoje, olho-a dormindo, sonhando comigo talvez, como um anjo, uma deusa que os céus me ofereceram, que não me deixa, que não pára de me amar, que não me canso de olhar, tão jovem, tão cheia de vida, tão apaixonada que já faz meses que a vejo dormir na minha cama, não mais saiu do meu leito desde aquela primeira vez.
Amei-a, amo-a, tão jovem, tão sonho, tão minha…

By: Angel-of-Death
In: "O Espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 12:54
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Fragmento 7 - Luxúria

Olhando o mar, consigo ver-me outra vez com dezasseis anos, correndo pela praia, o sol queimando a minha pele já morena, o mar revolto que não me deixava surfar, nuvens de tempestade que se formam ao longe, espero a melhor maré, não temo o mar, respeito-o, sei que não me posso descuidar, quando a tempestade vem não há margem para erro, espero, mais uma vez o impulso é mais forte, não resisto às ondas que se formam, junto-me aos meus amigos e preparo-me para entrar, a sensação de liberdade é indescritível, a adrenalina sobe a cada onda que rasgo com a minha prancha, a tempestade rebenta, trovões ecoam, raios descem das nuvens e trespassam os céus, logo caindo no mar, cada vez mais perigosa se torna a nossa aventura, mas ninguém nos consegue tirar da água, não há salvação possível, o nosso surf é a nossa loucura, a nossa vida, a nossa paixão, a nossa salvação, saímos da água numa ultima onda, a maior do dia, sempre a maior, sempre mais uma, e levanta-se uma parede com mais de 3 metros na minha frente, uma massa gigantesca de água salgada, que me vai levar para a praia ou para o inferno, arrisco, a vida é feita de riscos, não vale a pena ser vivida se assim não for, hoje correu bem, fico feliz, ela espera-me na praia, ela, a magia do pôr-do-sol, que enche de tons de fogo o céu nublado, amarelos laranjas e vermelhos que se reflectem nas nuvens para mim, para me dar um fogo de artifício natural, o clímax do dia, quando o sol se esconde para dormir do outro lado do mundo, e a lua se torna feiticeira das trevas, senhora da noite, da noite que amo tanto, que me esconde de mim e me revela outro eu, quês e confunde com a escuridão, mas que brilha com as luzes dos bares, das discotecas, das pistas de dança, que se perde nos copos e nos braços de mulheres, algumas que nem conhece, alguns que nem bebeu.
A adrenalina volta a subir, mas de forma diferente, mais doce, mais sensual, torno-me sensível aos odores da noite, ao cheiro das mulheres, ao toque suave dos seus dedos no meu rosto, no meu peito, no meu cabelo comprido, sou ainda uma criança, e já me dão tanto para viver, tantas coisas novas, sensações novas, perfumes de peles suadas, que sabem melhor do que mil rosas em flor, uma multiplicidade de cheiros e gostos, que mais não fazem do que abrir-me mais o apetite pela carne, a fome pelo sexo, pela vida, pela noite, pelas mulheres, que me tratam como se fosse um deus, mas só até eu lhes dar o que querem, o meu corpo, para usarem e abusarem, para satisfazerem o desejo de luxúria.
Eu não me importo, satisfaço também o meu próprio desejo, amo cada momento, cada instante em que aprendo alguma coisa, saboreio cada pedacinho de prazer, cada réstia de felicidade que a vida me dá, porque se não vivemos para tentar ser felizes, não vale a pena viver, a busca eterna de felicidade é que me faz sentir vivo, não quero apenas sobreviver, quero viver, com as coisas boas e as más, em cada coisa que a vida trás, há um pedacinho de alegria, pouca ou muita, há que saber encontrá-la e aproveitar…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 12:52
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