Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

Fragmento 4 – Nunca sou eu…

Só depois de começar a escrever sobre as mulheres, me dei conta do quão complicado eu sou, nunca me tinha apercebido de que era tão possessivo, não no que diz respeito a ciúmes, claro que também os tenho, mas sim em relação aos meus amores passados, porque me apercebi que mesmo depois de terminadas as relações, continuo com ciúmes, continuo a achar que deveriam ter-se mantido fies ao sentimento que existiu, mesmo eu não sendo, ou não tendo sido. Sei que não tenho esse direito, mas não o consigo evitar.
Sempre achei que amei todas, à minha maneira, amei cada pormenor que as distinguia, por coisas as vezes até insignificantes, mas que para mim fizeram a diferença. Assim sempre foi fácil eliminar os defeitos, simplesmente ignorava-os, só quando eles se tornavam mais visíveis, aí o meu interesse diminuía, e voltava a procurar alguém, que voltasse a despertar algo em mim
Acho que foi sempre uma espécie de mecanismo de defesa, nunca me abri por completo com nenhuma delas, aquilo que julgavam saber sobre mim, eram coisas que ouviam, ou que observavam, algumas conseguiram compreender-me, outras pensaram que sim, mas estavam enganadas, outras disseram conhecer-me, mas não podiam estar mais longe da verdade, quanto mais se esforçavam para me compreender, conhecer, maior era a mentira dentro das suas cabeças, eu sempre fui um livro aberto, para quem realmente estivesse interessado em ler, mas raramente alguém se interessou por isso, preferiam fantasia, ideias, amores perfeitos e sem mácula, amores impossíveis de serem vividos. Ou preferiam usar-me, servir-se de mim e deitar fora, preferiam não deixar ligações, a única coisa que deixavam era a roupa espalhado pelo chão, partindo depois, como se eu não existisse senão para isso, prazer, tirar prazer de mim. E o meu prazer? E o meu amor? Onde está isso?
Sou talvez uma pessoal terrível, terrivelmente posta de parte, sem que me dêem o devido valor, o devido amor. Talvez porque eu sempre neguei esse amor, com medo de me magoar, mesmo quando me entregava de alma e coração, nem mesmo assim a realidade era essa, nem sempre consegui fazer com que me compreendessem, nem sempre quis ser compreendido, a compreensão acaba com o suspense, com a magia.
E tudo isto acaba comigo, sempre comigo, que vou arrastando a minha existência, por este corpo usado, estes farrapos que me cobrem viveram dias intermináveis de sofrimento e alegria, arrasto o meu corpo pelo chão, enquanto me esvaio em pensamentos e lembranças do que não fiz, do que não passei. Afogo-me numa vida que não é minha, e caio por fim, derrotado por alguém que eu imaginei, porque não sou eu, nunca sou eu…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 17:22
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