Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

Fragmento 5 – Para mim, por ela, para ela

Manhã, sol, dia azul, claro, ainda cedo, uma brisa soprava do mar, fresca, entrava pela janela do quarto que tinha esquecido aberta na anterior, como que chamando-me, acordando-me para a vida. Rapidamente me levantei, ainda descalço e só de calças de pijama, roupa que uso de verão, se é que uso alguma, saio para a varanda e logo o odor do mar entrou em mim, a maresia intensa daquela manhã impelia-me para sair de casa.
Assim o fiz, de prancha na mão, depressa desfiz a pouca distancia que me separava daquela areia branca, o mar estava lindo, de um azul tão profundo que se fundia com o próprio céu, ninguém que ali estivesse nesse momento conseguia distingui-los, a ondulação calma, mas constante de cerca de um metro, estendia-se por várias dezenas de metros, excelente, pensei eu. O sol estava já bastante quente, não senti necessidade de vestir o fato, somente de calção, como o faziam os primeiros bodyboarders, quando ainda não havia nada de tecnologia aplicada a este desporto.
Entrei, a água estava óptima, não era normal naquela época do ano, raramente temos água quente aqui no norte, remei, remei, até á linha de rebentação mais afastada e maior, e lá fiquei, onda após onda, esperando a onda perfeita, a minha onda, e cada vez que apanhava uma, era sempre a mais perfeita, mas há sempre melhor, maior. Saí algumas horas depois, já devia ser perto da hora de almoço, sentia o sol cada vez mais quente nas minhas costas nuas. Foi quando a vi, e que visão, nada mais bonito que um artista desenhando o mar, não resisti, tinha de ver o desenho, e conhecer aquele anjo que o pintava.
Assim, pousei a prancha na areia e dirigi-me a ela, apresentei-me, o seu nome era Marta, Marta a pintora, que tinha decidido seguir arquitectura em vez da sua verdadeira vocação, as artes, porque o dinheiro vem primeiro, o vil metal, mais importante que a própria felicidade, quando o seu propósito é tornar-nos felizes e não seus escravos, de que serve se não nos trás satisfação. Mas ela era assim, e de repente já não era o desenho que cativava, era ela, o seu rosto moreno do sol e aqueles olhos cor de mar, um verde tão azul, os lábios cor de cereja madura, que tanto me apeteceu colher logo ali, naquele instante. Ela era do Porto, uma cidade que conheço bem, também eu lá estudava naquela altura, ou melhor, fazia que estudava, porque nunca foi vocação minha, a arte de marrar, apesar de me agradar bastante a leitura, não era bem desse género. Conversamos durante quase uma hora, eu sempre tentando saber mais e ela curiosa para saber de mim. Acabei por saber que ela passa férias cá, há já alguns anos, ali mesmo na minha terrinha e eu nunca a tinha visto, sabia bem mais sobre mim do que eu sobre ela, a minha fama de “playboy” era um pouco conhecida pela praia, muito bons momentos passei eu naquela areia, até mesmo com mulheres que nem conhecia, sobre um luar de prata, com o mar como cantor e as ondas a sua orquestra, que melhor ambiente poderá haver para os devaneios, de mentes e corpos jovens com as hormonas a fervilhar.
Fiquei bastante embaraçado ao saber que ela sabia de algumas histórias, por intermédio de amigas, com quem eu já tinha partilhado os momentos mágicos, no meu leito de areia. Para me desculpar, ou talvez não, pelos meus actos passados, decidi convidá-la para almoçar comigo, podia terminar o desenho da minha varanda, que tinha uma vista privilegiada. Decidi que iria cozinhar para ela, já que cozinhar é uma das minhas paixões. Antes mesmo de fazer o almoço, tinha de mostrar-lhe onde podia desenhar, então fui mostrar-lhe a varanda. Foi o meu maior pecado, mas também o mais doce, quando nos encontramos os dois na varanda, e os nossos olhares se cruzaram, foi como magia, e logo os nossos lábios se quiseram tocar, e como o gosto daqueles lábios ficou na minha boca, até um outro beijo se seguir, e mais outro e outro ainda, até se tornar um vício, e as nossas bocas não conseguirem mais descolar-se, nunca irei esquecer aquele sabor, aquele cheiro o cenário mais perfeito alguma vez criado para mim, mesmo que sem querer, sem ser essa a intenção, acabei por encontrar algo inesperadamente bonito. Naquele momento não se passaram mais do que simples beijos, trocas de olhares, vontades reprimidas, era cedo demais, ambos queríamos fazer durar o momento, tudo corria depressa, os olhos, os corações, a nossa urgência. Não avancei mais, deixei a calma instalar-se por momentos, tentei fazer qualquer coisa para o almoço, mas nada saía direito. Ela não conseguia terminar o desenho e resolveu juntar-se a mim na cozinha.
A nossa fome era outra, a nossa urgência em matar essa fome foi mais forte, passamos a tarde enfiados na cama, sorrindo das pequenas loucuras, das carícias, de tudo o que nos fazíamos, sem pensar em mais nada. Talvez tenha sido essa pressa, essa vontade de não esperar que nos uniu, e durante muito tempo, mesmo quando passavam semanas sem a ver, ela voltava, sempre sem perguntas, sem respostas, voltava com o seu amor incondicional, talvez o único que conheci, talvez ela tenha sido quem melhor me conheceu. Nunca me exigiu em troca do seu amor, nada mais que a minha presença quando ela voltava, e eu não soube ser assim, não consegui ser para ela, o que ela foi sempre para mim.
Agora que já se passou tanto tempo, consigo olhar para trás sem mágoa, sem sentir nada, apenas sorrio, lembrando-me de tudo o que de bom ficou. Ela um dia partiu, e nunca mais voltou.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 17:20
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1 comentário:
De mafalda a 16 de Outubro de 2005 às 13:25
linda historia de amor de desejo... o que mais admirei foi o final ..... admirei o facto de nao teres ficado com magoa, sem qualquer dor ....
Os amores condicionais sao sempre os melhores, nao se tem,nada se da e tudo se recebe....amei o texto ... beijo grande


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