Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005

Fragmento 6 - Como antes

Vens descalça, despida, despida também de mim. Onde está a paixão que via nos teus olhos, nos meus, onde está o amor eterno que juraste, onde está o desejo de mil noites de fogo, em que saudamos o novo dia com um beijo, selamos o nosso segredo com um olhar, fingimos nem reparar, as horas passam e sinto um nunca me fartar de ti, o dia não passa e as horas não correm, aqueles momentos que pareciam eternos enquanto nos amávamos. Quando? Diz-me quando tudo isso se foi!
Diz-me que estou errado, que não te vejo ainda em todo o lado, diz-me que tudo isto não morreu. Mostra-me quem fui, quem sou, mostra-me o que de errado se passou, porque não vimos tudo cair, como não notamos a vida a fugir. Por entre os dedos, deixei que levasses meu coração, minha mente, meu corpo, tentei dar-te tudo o que de melhor eu sabia, e para quê, o meu melhor nunca foi suficiente, nunca foi o ideal, e não precisava de o ser, talvez mais original, diferente, mas não sei ser assim, só sei ser eu, o eu por quem te apaixonaste, por quem te consumiste loucamente de paixão. Talvez tenha sido somente isso mesmo, uma paixão louca mas sem futuro, passageira, como um incêndio, intenso, quente, abrasador, queimando tudo por onde passa, mas extinguindo-se tão depressa como começou.
Agora vens para mim despida, despida de mim, sem razão aparente, deixas-me sozinho, vestes o manto de luz dos teus olhos e sais, pela mesma porta que te viu entrar da primeira vez, sais do meu mundo, da minha cabeça, deixas tudo espalhado, partido dentro de mim, como um tornado, viraste a minha vida do avesso, senti o calor do teu abraço, o último, não, talvez não.
Olho o tecto, sozinho, frio, branco, sem sinal de ti, perdido no meu olhar, no meu sentir, imóvel, ainda sem acreditar, não acredito, perdi, o jogo da minha vida perdi, sinto-me perdido, na confusão de imensos sentimentos que não consigo distinguir, não me consigo lembrar porque estou aqui, que força de gigante me derrubou, a mim, logo a mim que ninguém derruba, eu, tão forte e tão seguro, vejo-me agora deitado por terra, mergulhado numa escuridão profunda, como se um camião me tivesse passado por cima, não sei mais o que pensar, o que dizer, não sei mais.
A porta abre. Uma voz no fundo do quarto, perguntas-me se ainda te quero, se ainda te amo, dizes-me que não sabes o que te deu, o que aconteceu, porque me trataste daquela maneira, porque fugiste de mim. Não, não digo nada, fico quieto sem reacção.
Vens, vens agora para mim, despida e eu despido de ti, queres que tudo volte a ser como antes, abraças-me, beijas-me com a mesma paixão de sempre, com o mesmo fogo, tiras-me a pouca roupa que ainda tenho, pousas o teu corpo nu em cima do meu, sinto-me ser elevado, a minha alma sobe no quarto, vejo-me fazendo amor contigo, durante horas, sinto só o teu amor, o teu desejo, a tua insaciável fome de mim, tudo mudou, tudo se alterou dentro de nós. O prazer chega intenso, depois suave e novamente intenso, como antes, mas o antes já não existe. Cais exausta a meu lado, pareces feliz com a tua escolha, o sopro do prazer vê-se no teu rosto, o brilho dos teus olhos deixa transparecer o sentimento que te invade, o desejo volta, e mais uma vez sinto os teus braços, os teus lábios tocarem os meus, quentes, húmidos, como antes, voltamos a fazer amor, mas eu não volto a sorrir, não volto a beijar, o meu coração ficou frio, duro como diamante, uma pedra preciosa que um dia foi tua, mas não mais.
Deitas-te a meu lado despida, eu levanto-me despido de ti, e sem uma palavra, visto-me, tentas dizer-me algo, fazer-me sentir como antes, mas eu saio pela mesma porta que te viu entrar.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 14:09
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1 comentário:
De mafalda a 17 de Outubro de 2005 às 22:51
lindo... aserio... lindo,lindo,lindo.... amei o final...fixeste me pensar....beijo gand


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