Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005

Fragmento 7 - Luxúria

Olhando o mar, consigo ver-me outra vez com dezasseis anos, correndo pela praia, o sol queimando a minha pele já morena, o mar revolto que não me deixava surfar, nuvens de tempestade que se formam ao longe, espero a melhor maré, não temo o mar, respeito-o, sei que não me posso descuidar, quando a tempestade vem não há margem para erro, espero, mais uma vez o impulso é mais forte, não resisto às ondas que se formam, junto-me aos meus amigos e preparo-me para entrar, a sensação de liberdade é indescritível, a adrenalina sobe a cada onda que rasgo com a minha prancha, a tempestade rebenta, trovões ecoam, raios descem das nuvens e trespassam os céus, logo caindo no mar, cada vez mais perigosa se torna a nossa aventura, mas ninguém nos consegue tirar da água, não há salvação possível, o nosso surf é a nossa loucura, a nossa vida, a nossa paixão, a nossa salvação, saímos da água numa ultima onda, a maior do dia, sempre a maior, sempre mais uma, e levanta-se uma parede com mais de 3 metros na minha frente, uma massa gigantesca de água salgada, que me vai levar para a praia ou para o inferno, arrisco, a vida é feita de riscos, não vale a pena ser vivida se assim não for, hoje correu bem, fico feliz, ela espera-me na praia, ela, a magia do pôr-do-sol, que enche de tons de fogo o céu nublado, amarelos laranjas e vermelhos que se reflectem nas nuvens para mim, para me dar um fogo de artifício natural, o clímax do dia, quando o sol se esconde para dormir do outro lado do mundo, e a lua se torna feiticeira das trevas, senhora da noite, da noite que amo tanto, que me esconde de mim e me revela outro eu, quês e confunde com a escuridão, mas que brilha com as luzes dos bares, das discotecas, das pistas de dança, que se perde nos copos e nos braços de mulheres, algumas que nem conhece, alguns que nem bebeu.
A adrenalina volta a subir, mas de forma diferente, mais doce, mais sensual, torno-me sensível aos odores da noite, ao cheiro das mulheres, ao toque suave dos seus dedos no meu rosto, no meu peito, no meu cabelo comprido, sou ainda uma criança, e já me dão tanto para viver, tantas coisas novas, sensações novas, perfumes de peles suadas, que sabem melhor do que mil rosas em flor, uma multiplicidade de cheiros e gostos, que mais não fazem do que abrir-me mais o apetite pela carne, a fome pelo sexo, pela vida, pela noite, pelas mulheres, que me tratam como se fosse um deus, mas só até eu lhes dar o que querem, o meu corpo, para usarem e abusarem, para satisfazerem o desejo de luxúria.
Eu não me importo, satisfaço também o meu próprio desejo, amo cada momento, cada instante em que aprendo alguma coisa, saboreio cada pedacinho de prazer, cada réstia de felicidade que a vida me dá, porque se não vivemos para tentar ser felizes, não vale a pena viver, a busca eterna de felicidade é que me faz sentir vivo, não quero apenas sobreviver, quero viver, com as coisas boas e as más, em cada coisa que a vida trás, há um pedacinho de alegria, pouca ou muita, há que saber encontrá-la e aproveitar…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 12:52
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1 comentário:
De mafalda a 16 de Outubro de 2005 às 13:30
lindo ****


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