Quarta-feira, 15 de Junho de 2005

Fragmento 22 - O meu final...

the end.jpg

Um dia, tão igual aos outros, tão azul, tão sereno, cheio de luz, cheio do cantar dos pássaros, do rizo das crianças quem brincam, o choro daqueles que me vêm.
Como sempre estou no parque, adoro ver as crianças, adoro vê-las sorrir, tento recordar-me da criança que nunca fui, do adulto que nunca vou ser, deste estado de letargia, desta constante permanencia. Nunca me irei conformar, com o facto de que não posso envelhecer, a ideia parece incencebível, para alguém que está em contacto permanente com a humanidade, alguém que vive no meio deles, que se parece com eles, mas que só alguns vêm e só por momentos, breves, sempre muito breves.
Sou um anjo, o unico anjo que vive na terra, o unico que tem como obrigação falar com os mortais, mas só na hora das sua morte, os ultimos minutos, eu roubo o ultimo sopro de vida dos seus corpos moribundos e levo as suas almas, para o além, paraíso, inferno, purgatorio, quem sabe, quem acredita...
E imaginando, depois de tantos anos fazendo o mesmo serviço, fica-se no minimo curioso, em relação à vida terrena, ela fascinava-me, queria vê-la de mais perto, senti-la correr nas minhas veias, quebrar todas as leis e tornar-me mortal, mas, tinha de aproveitar um momento de distracção, teria de apoderar-me de um corpo sem que niguém percebesse. Assim foi, a minha proxima vitima tornou-se uma parte de mim e até hoje nao mais deixei este corpo.
Quando o tomei era ainda uma criança, não merecia deixar a vida tão cedo, assim restituí.lha, dei-lhe de novo o sopro da vida que era meu dever roubar, e com ela, o meu espírito.
Não mais tive de entrar na vida de ninguém e dizer, " quando a morte bate a porta, há que deixá-la entrar, é hora de deixar este mundo, deixar um corpo que já não nos serve, e seguir em frente".
Queria ver este meu novo corpo crescer, ser feliz, talvez um dia sentir o amor, absorver todas estas sensações novas, e como era bom poder sentir-me vivo, poder sentir o calor do sol, a chuva no meu rosto, o vento nos cabelos, quantos anos tinha eu passado a roubar todas estas coisas, sem saber o que realmente perdia. A alegria de poder crescer, de poder sentir, de poder viver. Iria por fim envelhecer, junto com este meu novo corpo, como um mortal.
Então senti, senti um leve frio escorrendo pelo meu pescoço, húmido, e cada vez mais intenço. Fui abrindo os olhos e a chuva caía sobre o parque, os baloiços vazios, o eco do riso das crianças que nao estavam lá mais, o meu despertar frio e molhado, naquele banco de jardim, tentei levantar-me, mas as minhas roupas pesadas da água eram demais para mim. Depois de 80 anos e uma vida cheia de vigor, nem conseguia levantar-me de um banco de jardim.
Deixei-me ficar mais uns momentos, tentando recuperar forças para me levantar ,fui fechando os olhos devagar , e por uns momentos, consegui vê-lo, não ouvi o que me disse, mas nunca mais abri os olhos...

By: Angel-of-Death
In: #O espelho e eu"
publicado por Angel-of-Death às 00:56
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1 comentário:
De Liliana a 20 de Junho de 2005 às 17:06
Mais um dos teus textos fantásticos... Desta vez fizeste-me recordar o filme : "Cidade dos Anjos" A morte a vida lado a lado como se o poder estivesse nas nossas mãos de voltar a viver num outro corpo e lutar para saborear o que não vivemos antes... Beijinhos Parabéns


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