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thefallenangel

thefallenangel

10.10.05

Fragmento 2 – Só eu, só…


Angel-of-Death

Sou uma criança mimada, mas ás vezes nem tanto, falta-me amor, não é só de vontades e de mimos que alguém consegue viver emocionalmente estável.
Tenho acessos de loucura, loucura temporária, não sei com quem falo e como falo, magoo tudo e todos, faço disparates, aprendo a amar em minutos. Preciso de amor e procuro-o, mesmo onde ele não existe. Confundo todos e a mim mesma, sou o maior inimigo de mim, vivo ás vezes só para me magoar, para me mostrar que consigo sentir, que não sou de pedra, que não sou fria, mesmo quando me aturam com toda a neve do mundo.
Vivo os problemas dos outros que também são meus, não fujo de nada, sou forte e choro, sou forte e caio por terra, desterrada, infeliz e miserável, porque não consigo fazer com que se gostem, não consigo remendar o que está mal. Estou frustrada, estou mal e não sei que fazer, mostro tudo aquilo que não sou, vivo sozinha dentro de mim, amo sem saber porquê, e fujo, deixo que tudo fuja de mim, porque não me consigo agarrar, não consigo ter nada só meu, não consigo entender porque tem de ser assim, e no entanto não quero nada de outra maneira.
Amo, sim, amo baixinho, sem ninguém saber, amo quem não me ama a mim, amo quem me ama e só me faz sofrer, magoa-me com o seu sofrimento, e não consigo mais sofrer, grito por ajuda e ninguém me ouve, grito por ti e não estás lá, nem podes estar, nem quero que estejas. Não é mais por isso que sou assim, sou o negro e sou o sol, sou a lua e o mar, sou uma criança ainda e preciso de te amar, não sei como, nem porquê, mas preciso de ti, como tu não precisas de mim. E eu continuo, contigo a meu lado e sem saber de ti, contigo tão perto e sem te poder tocar, continuo, em direcção a nada, em direcção a ti, sempre contigo e com tudo e que amo, mas sozinha, sem saber mais porque estou aqui, sem saber quando me perdi, sem saber qual o caminho a seguir, se mais me aproximo ou se me afasto, continuo eu só, só aqui, tão perto de ti, e tu tão longe de mim.
Sim, nunca te vi partir, nem nunca te vi deixar de chegar, nunca fiquei sem ti, nem te tinha para ficar, fico só sempre sem tudo, parece que vou perdendo tudo pelo caminho, quando nem sem que caminho percorri, não sei mais onde fui e de onde vim. Fiquei só eu, só…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

10.10.05

Fragmento 4 – Nunca sou eu…


Angel-of-Death

Só depois de começar a escrever sobre as mulheres, me dei conta do quão complicado eu sou, nunca me tinha apercebido de que era tão possessivo, não no que diz respeito a ciúmes, claro que também os tenho, mas sim em relação aos meus amores passados, porque me apercebi que mesmo depois de terminadas as relações, continuo com ciúmes, continuo a achar que deveriam ter-se mantido fies ao sentimento que existiu, mesmo eu não sendo, ou não tendo sido. Sei que não tenho esse direito, mas não o consigo evitar.
Sempre achei que amei todas, à minha maneira, amei cada pormenor que as distinguia, por coisas as vezes até insignificantes, mas que para mim fizeram a diferença. Assim sempre foi fácil eliminar os defeitos, simplesmente ignorava-os, só quando eles se tornavam mais visíveis, aí o meu interesse diminuía, e voltava a procurar alguém, que voltasse a despertar algo em mim
Acho que foi sempre uma espécie de mecanismo de defesa, nunca me abri por completo com nenhuma delas, aquilo que julgavam saber sobre mim, eram coisas que ouviam, ou que observavam, algumas conseguiram compreender-me, outras pensaram que sim, mas estavam enganadas, outras disseram conhecer-me, mas não podiam estar mais longe da verdade, quanto mais se esforçavam para me compreender, conhecer, maior era a mentira dentro das suas cabeças, eu sempre fui um livro aberto, para quem realmente estivesse interessado em ler, mas raramente alguém se interessou por isso, preferiam fantasia, ideias, amores perfeitos e sem mácula, amores impossíveis de serem vividos. Ou preferiam usar-me, servir-se de mim e deitar fora, preferiam não deixar ligações, a única coisa que deixavam era a roupa espalhado pelo chão, partindo depois, como se eu não existisse senão para isso, prazer, tirar prazer de mim. E o meu prazer? E o meu amor? Onde está isso?
Sou talvez uma pessoal terrível, terrivelmente posta de parte, sem que me dêem o devido valor, o devido amor. Talvez porque eu sempre neguei esse amor, com medo de me magoar, mesmo quando me entregava de alma e coração, nem mesmo assim a realidade era essa, nem sempre consegui fazer com que me compreendessem, nem sempre quis ser compreendido, a compreensão acaba com o suspense, com a magia.
E tudo isto acaba comigo, sempre comigo, que vou arrastando a minha existência, por este corpo usado, estes farrapos que me cobrem viveram dias intermináveis de sofrimento e alegria, arrasto o meu corpo pelo chão, enquanto me esvaio em pensamentos e lembranças do que não fiz, do que não passei. Afogo-me numa vida que não é minha, e caio por fim, derrotado por alguém que eu imaginei, porque não sou eu, nunca sou eu…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

10.10.05

Fragmento 5 – Para mim, por ela, para ela


Angel-of-Death

Manhã, sol, dia azul, claro, ainda cedo, uma brisa soprava do mar, fresca, entrava pela janela do quarto que tinha esquecido aberta na anterior, como que chamando-me, acordando-me para a vida. Rapidamente me levantei, ainda descalço e só de calças de pijama, roupa que uso de verão, se é que uso alguma, saio para a varanda e logo o odor do mar entrou em mim, a maresia intensa daquela manhã impelia-me para sair de casa.
Assim o fiz, de prancha na mão, depressa desfiz a pouca distancia que me separava daquela areia branca, o mar estava lindo, de um azul tão profundo que se fundia com o próprio céu, ninguém que ali estivesse nesse momento conseguia distingui-los, a ondulação calma, mas constante de cerca de um metro, estendia-se por várias dezenas de metros, excelente, pensei eu. O sol estava já bastante quente, não senti necessidade de vestir o fato, somente de calção, como o faziam os primeiros bodyboarders, quando ainda não havia nada de tecnologia aplicada a este desporto.
Entrei, a água estava óptima, não era normal naquela época do ano, raramente temos água quente aqui no norte, remei, remei, até á linha de rebentação mais afastada e maior, e lá fiquei, onda após onda, esperando a onda perfeita, a minha onda, e cada vez que apanhava uma, era sempre a mais perfeita, mas há sempre melhor, maior. Saí algumas horas depois, já devia ser perto da hora de almoço, sentia o sol cada vez mais quente nas minhas costas nuas. Foi quando a vi, e que visão, nada mais bonito que um artista desenhando o mar, não resisti, tinha de ver o desenho, e conhecer aquele anjo que o pintava.
Assim, pousei a prancha na areia e dirigi-me a ela, apresentei-me, o seu nome era Marta, Marta a pintora, que tinha decidido seguir arquitectura em vez da sua verdadeira vocação, as artes, porque o dinheiro vem primeiro, o vil metal, mais importante que a própria felicidade, quando o seu propósito é tornar-nos felizes e não seus escravos, de que serve se não nos trás satisfação. Mas ela era assim, e de repente já não era o desenho que cativava, era ela, o seu rosto moreno do sol e aqueles olhos cor de mar, um verde tão azul, os lábios cor de cereja madura, que tanto me apeteceu colher logo ali, naquele instante. Ela era do Porto, uma cidade que conheço bem, também eu lá estudava naquela altura, ou melhor, fazia que estudava, porque nunca foi vocação minha, a arte de marrar, apesar de me agradar bastante a leitura, não era bem desse género. Conversamos durante quase uma hora, eu sempre tentando saber mais e ela curiosa para saber de mim. Acabei por saber que ela passa férias cá, há já alguns anos, ali mesmo na minha terrinha e eu nunca a tinha visto, sabia bem mais sobre mim do que eu sobre ela, a minha fama de “playboy” era um pouco conhecida pela praia, muito bons momentos passei eu naquela areia, até mesmo com mulheres que nem conhecia, sobre um luar de prata, com o mar como cantor e as ondas a sua orquestra, que melhor ambiente poderá haver para os devaneios, de mentes e corpos jovens com as hormonas a fervilhar.
Fiquei bastante embaraçado ao saber que ela sabia de algumas histórias, por intermédio de amigas, com quem eu já tinha partilhado os momentos mágicos, no meu leito de areia. Para me desculpar, ou talvez não, pelos meus actos passados, decidi convidá-la para almoçar comigo, podia terminar o desenho da minha varanda, que tinha uma vista privilegiada. Decidi que iria cozinhar para ela, já que cozinhar é uma das minhas paixões. Antes mesmo de fazer o almoço, tinha de mostrar-lhe onde podia desenhar, então fui mostrar-lhe a varanda. Foi o meu maior pecado, mas também o mais doce, quando nos encontramos os dois na varanda, e os nossos olhares se cruzaram, foi como magia, e logo os nossos lábios se quiseram tocar, e como o gosto daqueles lábios ficou na minha boca, até um outro beijo se seguir, e mais outro e outro ainda, até se tornar um vício, e as nossas bocas não conseguirem mais descolar-se, nunca irei esquecer aquele sabor, aquele cheiro o cenário mais perfeito alguma vez criado para mim, mesmo que sem querer, sem ser essa a intenção, acabei por encontrar algo inesperadamente bonito. Naquele momento não se passaram mais do que simples beijos, trocas de olhares, vontades reprimidas, era cedo demais, ambos queríamos fazer durar o momento, tudo corria depressa, os olhos, os corações, a nossa urgência. Não avancei mais, deixei a calma instalar-se por momentos, tentei fazer qualquer coisa para o almoço, mas nada saía direito. Ela não conseguia terminar o desenho e resolveu juntar-se a mim na cozinha.
A nossa fome era outra, a nossa urgência em matar essa fome foi mais forte, passamos a tarde enfiados na cama, sorrindo das pequenas loucuras, das carícias, de tudo o que nos fazíamos, sem pensar em mais nada. Talvez tenha sido essa pressa, essa vontade de não esperar que nos uniu, e durante muito tempo, mesmo quando passavam semanas sem a ver, ela voltava, sempre sem perguntas, sem respostas, voltava com o seu amor incondicional, talvez o único que conheci, talvez ela tenha sido quem melhor me conheceu. Nunca me exigiu em troca do seu amor, nada mais que a minha presença quando ela voltava, e eu não soube ser assim, não consegui ser para ela, o que ela foi sempre para mim.
Agora que já se passou tanto tempo, consigo olhar para trás sem mágoa, sem sentir nada, apenas sorrio, lembrando-me de tudo o que de bom ficou. Ela um dia partiu, e nunca mais voltou.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

07.10.05

Fragmento 6 - Como antes


Angel-of-Death

Vens descalça, despida, despida também de mim. Onde está a paixão que via nos teus olhos, nos meus, onde está o amor eterno que juraste, onde está o desejo de mil noites de fogo, em que saudamos o novo dia com um beijo, selamos o nosso segredo com um olhar, fingimos nem reparar, as horas passam e sinto um nunca me fartar de ti, o dia não passa e as horas não correm, aqueles momentos que pareciam eternos enquanto nos amávamos. Quando? Diz-me quando tudo isso se foi!
Diz-me que estou errado, que não te vejo ainda em todo o lado, diz-me que tudo isto não morreu. Mostra-me quem fui, quem sou, mostra-me o que de errado se passou, porque não vimos tudo cair, como não notamos a vida a fugir. Por entre os dedos, deixei que levasses meu coração, minha mente, meu corpo, tentei dar-te tudo o que de melhor eu sabia, e para quê, o meu melhor nunca foi suficiente, nunca foi o ideal, e não precisava de o ser, talvez mais original, diferente, mas não sei ser assim, só sei ser eu, o eu por quem te apaixonaste, por quem te consumiste loucamente de paixão. Talvez tenha sido somente isso mesmo, uma paixão louca mas sem futuro, passageira, como um incêndio, intenso, quente, abrasador, queimando tudo por onde passa, mas extinguindo-se tão depressa como começou.
Agora vens para mim despida, despida de mim, sem razão aparente, deixas-me sozinho, vestes o manto de luz dos teus olhos e sais, pela mesma porta que te viu entrar da primeira vez, sais do meu mundo, da minha cabeça, deixas tudo espalhado, partido dentro de mim, como um tornado, viraste a minha vida do avesso, senti o calor do teu abraço, o último, não, talvez não.
Olho o tecto, sozinho, frio, branco, sem sinal de ti, perdido no meu olhar, no meu sentir, imóvel, ainda sem acreditar, não acredito, perdi, o jogo da minha vida perdi, sinto-me perdido, na confusão de imensos sentimentos que não consigo distinguir, não me consigo lembrar porque estou aqui, que força de gigante me derrubou, a mim, logo a mim que ninguém derruba, eu, tão forte e tão seguro, vejo-me agora deitado por terra, mergulhado numa escuridão profunda, como se um camião me tivesse passado por cima, não sei mais o que pensar, o que dizer, não sei mais.
A porta abre. Uma voz no fundo do quarto, perguntas-me se ainda te quero, se ainda te amo, dizes-me que não sabes o que te deu, o que aconteceu, porque me trataste daquela maneira, porque fugiste de mim. Não, não digo nada, fico quieto sem reacção.
Vens, vens agora para mim, despida e eu despido de ti, queres que tudo volte a ser como antes, abraças-me, beijas-me com a mesma paixão de sempre, com o mesmo fogo, tiras-me a pouca roupa que ainda tenho, pousas o teu corpo nu em cima do meu, sinto-me ser elevado, a minha alma sobe no quarto, vejo-me fazendo amor contigo, durante horas, sinto só o teu amor, o teu desejo, a tua insaciável fome de mim, tudo mudou, tudo se alterou dentro de nós. O prazer chega intenso, depois suave e novamente intenso, como antes, mas o antes já não existe. Cais exausta a meu lado, pareces feliz com a tua escolha, o sopro do prazer vê-se no teu rosto, o brilho dos teus olhos deixa transparecer o sentimento que te invade, o desejo volta, e mais uma vez sinto os teus braços, os teus lábios tocarem os meus, quentes, húmidos, como antes, voltamos a fazer amor, mas eu não volto a sorrir, não volto a beijar, o meu coração ficou frio, duro como diamante, uma pedra preciosa que um dia foi tua, mas não mais.
Deitas-te a meu lado despida, eu levanto-me despido de ti, e sem uma palavra, visto-me, tentas dizer-me algo, fazer-me sentir como antes, mas eu saio pela mesma porta que te viu entrar.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

07.10.05

Fragmento 9 - Um sonho meu...


Angel-of-Death

Pensei escrever algo bonito, que mostra-se a alegria de viver que me vai na alma, a alegria de amar, de me sentir amado é quase surreal, como um sonho, ou é um sonho, mas tão real que o posso sentir, tocar, cheirar, até mesmo sentir-lhe o sabor e ela própria é um sonho, o meu sonho, o sonho de um dia encontrar alguém como ela, é claro que nunca pensei que ela ia ser tão nova, mas o meu coração não sente essa diferença e penso que o dela também não.
Quando estamos juntos o tempo pára, o sol não deixa de brilhar, a água deixa de correr, somos só nós numa redoma de cristal e o mundo todo cá fora deixa de se ouvir, deixa de ser importante, desaparece como que por magia e o sol brilha só para nós. Sentimos o fogo ardente, da paixão que nos consome a alma, um sentimento tão intenso, que surgiu de uma simples amizade e evoluiu, cresceu e se tornou no imenso amor que sinto agora, amor que me aquece, que me conforta, que me alegra, que me ocupa o pensamento e não dá espaço a mais coisa alguma, que me entristece, por breves momentos, quando penso que não podemos vivê-lo, da maneira que mais gostaríamos, mas um dia, um dia o nosso amor será livre, mas será só nosso, enquanto ela assim o quiser, enquanto ela me quiser amar eu vou amá-la e mesmo quando ela não mais me quiser, vou continuar a amá-la, porque só se encontra o grande amor da vida, uma única vez, e eu, depois de tanto procurar, encontrei-o nos olhos dela.
Olhos tão profundos e que me parecem tão sinceros, tão cheios de vida e de amor, olhos que parecem adorar-me, e cada vez que olha para mim, cada vez que me diz, que tem a certeza que eu sou o homem da sua vida e a certeza com que o diz, deixa-me feliz, só com a sua presença, o seu sorriso, a sua expressão quando não sabe o que fazer ou dizer, ou então até sabe, mas não sabe se deve.
Adoro todas as coisinhas pequenas, todos os gestos, todos os beijos me sabem a pouco, o toque da sua pele, a língua que me provoca arrepios, o seu corpo quente, até aquele piercing no umbigo, com o qual não paro de brincar, sei lá, adoro adorá-la, adoro sentir-me assim e saber que ela também o sente, adoro fazê-la feliz, acho que a faço feliz, pelo menos tento, dentro dos possíveis…
Adoro… Não sei mais o que dizer... Adoro adorar…
Não quero, não quero mais acordar…
Não quero mais que seja só um sonho, já não quero estar a sonhar. Mas o dia chega…

By: Angel-of-Death
In: "Oespelho e eu"

07.10.05

Fragmento 8 - Tão minha...


Angel-of-Death

Olho-te, deitada a meu lado, dormindo como um anjo, toco suavemente o teu rosto, sinto a tua pele macia nos meus dedos, a tua pele jovem e sem marcas do tempo, não me canso de te contemplar, nunca estive tão perto de um ser celestial, uma deusa dorme na minha cama, tão perfeita a meus olhos, tão cheia de vida, tão jovem…
Agora tento recordar-me de como tudo começou, vem-me à memória a imagem de quando te vi pela primeira vez, num bar, eu estava com uns amigos e a minha ex. namorada, tu com um grupo de amigas, todas mais ou menos da tua idade, mas algo em ti me chamou a atenção, talvez a tua pele morena, os teus olhos negros ou o teu ar de indígena, agora nem sei bem, mas parecias uma indiazinha, saída de um filme, reparei que trazias um colar igual ao meu, achei que provavelmente tivéssemos o mesmo gosto por culturas índias, porque pouco depois reparaste também no meu colar enquanto dançava.
Não queria acreditar quando te vi aproximar, sussurraste-me o teu nome ao ouvido, senti um arrepio percorrer-me o corpo todo, não acreditei que tinhas falado comigo, e muito menos quando chamas-te o meu nome, sei que não to tinha dito, aliás, nunca te tinha visto antes. Só mais tarde vim a perceber, uma das amigas, que era afinal irmã dela, era uma ex. namorada minha, com quem tinha passado bons momentos e de quem tinha boas recordações, esperava que ela também tivesse. Continuei a dançar e tu cada vez mais perto, podia sentir o calor do teu corpo, quase colado ao meu, deixei de ligar a tudo o resto, éramos só nos dois ali, naquela pista de dança, cada vez sentindo mais o teu corpo roçar o meu, olhei em volta, os meus amigos continuavam lá, e a minha namorada olhava-me, com cara de quem me queria espancar, e eu apesar de tudo não liguei.
Só parei de dançar, quando a tua irmã te veio dizer que ia embora, sem eu pronunciar qualquer palavra, disseste-lhe que só ias embora comigo, ela acenou que sim, despediu-se de mim e saiu. Atrás dela saíste tu, pedindo-me que te seguisse, como que hipnotizado acedi ao teu pedido, sei que não o devia ter feito, mas deixei os meus amigos e a minha namorada e fui até a praia, seguindo-te, como se aquele fosse o único caminho, a única verdade.
Quando paramos em frente ao mar, o transe passou, vi o luar iluminar-te o rosto, a lua cheia enchia de prata toda a praia, como num sonho das mil e uma noites, em que o nosso castelo de prata e pedras preciosas era a praia, o mar e as estrelas. Disse-te que não sabia porque estava ali, que não devia estar ali, mas a tua resposta agradou-me demais, se eu ali estava, é porque tinha de ali estar, era o nosso destino a chamar por nós, era o canto daquela sereia que me fazia perder o controlo, era o seu perfume de flores frescas de Primavera, e nem todo o frio da noite nos dissuadia, nada nem ninguém nos podia tirar aquele momento, aquele primeiro beijo, terno, quente, molhado, o brilho dos teus olhos, que pareciam duas pérolas negras, o toque suave da tua pele colada na minha, os teus braços que me envolviam o corpo, a alma, e todo o meu ser ficou nas tuas mão nesse momento.
Perguntaste-me se acreditava em amor a primeira vista, naquele momento fiquei a ser crente fiel da teoria, sorriste, voltaste a beijar-me, aproximaste-te do meu ouvido e disseste baixinho que acreditavas, sim, acreditavas que te tinhas apaixonado por mim nessa noite e pediste-me para te amar, para te fazer sentir o meu amor, nem que fosse só por uns momentos.
Como fomos loucos, fazendo amor pela praia, cobertos com nada mais que as estrelas, deitados na areia cor de prata do luar, sem nos importarmos com nada, com mais ninguém. Levei-te comigo para casa, não querias separar-te de mim, abracei-te forte enquanto tomávamos banho, era hora de nos vermos livres da areia da praia, deixei-me ficar só, só abraçado a ti, sentindo-te minha, contemplando o teu corpo, tão bonito, tão jovem, tão perfeito. Deixei a água lavar todos os pecados, todas as tristezas que nos iam na alma, que nos cresciam dentro do peito, naquele abraço que parecia não ter fim.
Quebraste, o abraço dissolveu-se, beijaste-me com muita força, choravas, dizias que não conseguias entender, que não querias entender, mas que não podias ficar sem mim, tive vontade de rir, apesar de não ser a altura própria uma gargalhada saiu, ela olhou para mim não acreditando, acalmei-a dizendo que não era possível ela ficar sem algo que lhe pertencia, logo sorriu, beijou-me e vestiu uma camisola minha que lhe ficava enorme, mas tão linda, ela deitou-se ao meu lado, sorriu para mim, beijou-me e abraçada a mim adormeceu.
Como hoje, olho-a dormindo, sonhando comigo talvez, como um anjo, uma deusa que os céus me ofereceram, que não me deixa, que não pára de me amar, que não me canso de olhar, tão jovem, tão cheia de vida, tão apaixonada que já faz meses que a vejo dormir na minha cama, não mais saiu do meu leito desde aquela primeira vez.
Amei-a, amo-a, tão jovem, tão sonho, tão minha…

By: Angel-of-Death
In: "O Espelho e eu"

07.10.05

Fragmento 7 - Luxúria


Angel-of-Death

Olhando o mar, consigo ver-me outra vez com dezasseis anos, correndo pela praia, o sol queimando a minha pele já morena, o mar revolto que não me deixava surfar, nuvens de tempestade que se formam ao longe, espero a melhor maré, não temo o mar, respeito-o, sei que não me posso descuidar, quando a tempestade vem não há margem para erro, espero, mais uma vez o impulso é mais forte, não resisto às ondas que se formam, junto-me aos meus amigos e preparo-me para entrar, a sensação de liberdade é indescritível, a adrenalina sobe a cada onda que rasgo com a minha prancha, a tempestade rebenta, trovões ecoam, raios descem das nuvens e trespassam os céus, logo caindo no mar, cada vez mais perigosa se torna a nossa aventura, mas ninguém nos consegue tirar da água, não há salvação possível, o nosso surf é a nossa loucura, a nossa vida, a nossa paixão, a nossa salvação, saímos da água numa ultima onda, a maior do dia, sempre a maior, sempre mais uma, e levanta-se uma parede com mais de 3 metros na minha frente, uma massa gigantesca de água salgada, que me vai levar para a praia ou para o inferno, arrisco, a vida é feita de riscos, não vale a pena ser vivida se assim não for, hoje correu bem, fico feliz, ela espera-me na praia, ela, a magia do pôr-do-sol, que enche de tons de fogo o céu nublado, amarelos laranjas e vermelhos que se reflectem nas nuvens para mim, para me dar um fogo de artifício natural, o clímax do dia, quando o sol se esconde para dormir do outro lado do mundo, e a lua se torna feiticeira das trevas, senhora da noite, da noite que amo tanto, que me esconde de mim e me revela outro eu, quês e confunde com a escuridão, mas que brilha com as luzes dos bares, das discotecas, das pistas de dança, que se perde nos copos e nos braços de mulheres, algumas que nem conhece, alguns que nem bebeu.
A adrenalina volta a subir, mas de forma diferente, mais doce, mais sensual, torno-me sensível aos odores da noite, ao cheiro das mulheres, ao toque suave dos seus dedos no meu rosto, no meu peito, no meu cabelo comprido, sou ainda uma criança, e já me dão tanto para viver, tantas coisas novas, sensações novas, perfumes de peles suadas, que sabem melhor do que mil rosas em flor, uma multiplicidade de cheiros e gostos, que mais não fazem do que abrir-me mais o apetite pela carne, a fome pelo sexo, pela vida, pela noite, pelas mulheres, que me tratam como se fosse um deus, mas só até eu lhes dar o que querem, o meu corpo, para usarem e abusarem, para satisfazerem o desejo de luxúria.
Eu não me importo, satisfaço também o meu próprio desejo, amo cada momento, cada instante em que aprendo alguma coisa, saboreio cada pedacinho de prazer, cada réstia de felicidade que a vida me dá, porque se não vivemos para tentar ser felizes, não vale a pena viver, a busca eterna de felicidade é que me faz sentir vivo, não quero apenas sobreviver, quero viver, com as coisas boas e as más, em cada coisa que a vida trás, há um pedacinho de alegria, pouca ou muita, há que saber encontrá-la e aproveitar…

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

27.09.05

Fragmento 33 - Como te faço mal


Angel-of-Death

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Às vezes gostava de não sentir mais nada, de não me preocupar, era tudo tão mais fácil, parecia tudo tão fácil, era um caso simples, nunca dveria ter sido assim, não era suposto ser assim, agora que tudo deveria estar bem, só te faço mal, só te magoo, só faço aquilo que não devia, mas não o consigo evitar. Parece-me lógico, nunca começamos bem, tería mesmo de acabar assim, ou até pior, sei lá, mesmo eu sabendo que não quero que tudo termine, era o caminho mais simples a seguir, o mais sensato até, o mais correcto seria eu nunca ter aparecido na tua vida, não te ter feito feliz, não te ter feito um cem numero de coisas de que não me arrependo, porque não posso, fui feliz contigo e não posso dizer que não o sou ainda, mas eu sempre quis muito mais, sempre me soube a pouco, quero sempre o mundo inteiro e nao consigo ter nada, nem a mim próprio.
Sei que não é fácil sentires o meu olhar, veres o meu sorriso e até estar comigo e ser minha amiga, mas como queres que me afaste de ti? Não sabes tambem, nem nunca pensas, que eu tambem sinto, que a mim tambem me doi, porque não é por fazer asneiras ou querer parecer forte, não é por fazer cara de mau que os sentimentos se vão embora. Não sou insensível nem nenhum monstro, nem tão pouco sou correcto, sou humano, tenho falhas, tambem eu preciso de compreensão, de carinho, mas nem sempre sei dá-lo, nem procurá-lo, não sou pessoa de expor os meus sentimentos, não sei nem consigo fazê-lo, sou demasiado fechado e sinto-me muitas vezes culpado, de tudo o que está a acontecer.
Não sei mesmo porque te faço mal, mas faço e continuo a fazer, até sem saber, muitas vezes sem querer, quase sempre sem perceber o que sinto por ti. Não te quero perto e sinto a tua falta, como já senti e as vezes sinto dela, sim, ela, que durante tanto tempo absorveu todo o meu tempo, sim ela, que durante meses, que pareciam intermináveis, me fez repensar as minhas amizades, deixar os meus amigos, ela que foi tão importante, que nem me importei, sim ela, que não soube ser quem era, que não soube ver quem eu era, como tu não me ves agora, em parte porque eu nunca deixo, porque conhecer-me é tirar um pedaço de mim, é deixar-me vulnerável, de peito aberto a espera de ser apunhalado, sim, como já fui, como não voltarei a ser, e por isso nao deixarei mais ninguém conhecer, o amor que há em mim.
Como te faço mal, faço-o a mim tambem, todos os dias da minha vida. Se vale a pena gostar de mim? Não sei, nunca vou ser eu a responder a isso, até porque fujo sempre. Mas sei sim, como te faço mal.

By: Angel-of-Death
In: "O Espelho e eu"

20.09.05

Fragmento 32 - Não sou de lá


Angel-of-Death

Imagem 287.jpg

Sinto-me bem,sinto-me mal, acho que até nem me sinto, nem sei muitas vezes o que se
passa realmente comigo.
A vida passa por mim sem eu entrar, sem eu a deixar entrar, sem fazer grande sentido para mim,
como algumas vezes já não fez, como algumas vezes já tentei separar-me dela e não consegui,
não me deixaram ou a coragem faltou.
Seja como for, parece que finalmente as coisa começam a correr-me bem, ou mais ou menos,
uns dias melhor outros pior, sim, porque nunca sei como vão ser, as minhas emoções são demasiado
instáveis, não consigo controlar e esconder quando estou bem ou mal, e fico mal em segundos, muitas
vezes até me sinto mal por me sentir mal, porque penso no que os outros pensam de mim. Mas, afinal,
são meus amigos, deviam compreender-me e nem sempre sei se assim é...
Mas a verdade é que é cá que me sinto bem, apoioada, feliz, sim, porque apesar de ter nascido e ter
sido criada e até morar lá, não sou de lá, é aqui que me sinto em casa, aqui aprendi a contar com
o apoio das pessoas que me querem bem, aqui encontrei uma família bem diferente, que me compreende
ou pelo menos tenta compreender, aqui e não lá, porque no meu coração já nao sou de lá, talvez
nunca tenha sido.
Apesar de tudo e de não o confessar, é cá que sinto tudo, o bom e o mau, o amor e a tristeza, a amizade,
é aqui que quero ficar e só agora o sei. Aqui será o inicio de uma nova etapa na minha vida, que com um
pouco de sorte e ajuda de quem me quer bem, será uma fase bem mais feliz...
Aqui e não lá.

By: Angel-of-Death
In: "O Espelho e Eu"

12.09.05

Fragmento 31 - Quase que te odeio


Angel-of-Death

zambujeira-2.jpg

Detesto quando me olhas assim, parece que me vês através da roupa, da alma, fazes-me sentir nua, usada, sem segredos, despida da minha própria intimidade, da minha identidade, sinto-me um pedaço de carne, que comes quando bem te apetece, que usas a teu belo prazer, onde e quando te dá vontade, para depois me esqueceres, até à próxima refeição. Às vezes quase me odeio por te amar tanto, quase te odeio por me fazeres tanto mal, mas não consigo, o meu amor é maior que o meu ódio e acabo sempre a chorar por ti, por sinto a tua falta, mesmo sabendo que vais voltar a usar-me...
E mesmo quando me amas, é sempre em segredo, e sempre me da medo, porque nunca dura muito esse teu amor.
Forma estranha de amar, que mesmo nãoi conseguindo calar, sei que a devo mudar, esquecer, sem ti, continuar a viver, mas não consigo e quase que te odeio...
Porque me prendes a ti? POrque não me deixas viver em paz, sem o brilho dos teus olhos, sem esse teu sorriso que tanto adoro, porque não me deixas de uma vez?
Sabes o quento me magoas e continuas, dás-me um pouco de amor e partes. E sabes quantas vezes quase te odeio, e sempre quero mais, espero por mais, tenho sempre a esperança que mudes e a certeza que não mudarás... Não aceito conselhos dos meus amigos, porque quando são contra ti, quase os odeio tambem, mesmo sabendo-os certos, mesmo eu conhecendo-te cada vez mais, amo-te e quase te odeio.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

19.08.05

Fragmento 30 - Ás Vezes custa...


Angel-of-Death

Não percebo bem ainda o que queres para nós, se nós realmente existimos ou se não é só uma fantasia.
Ás vezes custa-me pensar assim, mas pareço mais um problema, que uma solução quando, deveria ser o contrário. Custa-te gostar, admitir que gostas, custa-te talvez magoar-me? Sinto-me muitas vezes como um mal menor, que facilmente se ignora e se deixa de lado, à espera de uma resolução bem mais simples…
Às vezes custa, perder o que se gosta, perder quem se gosta, ou não perder nada, porque afinal nada é o que existe em maior quantidade.
Gostava de perceber e não consigo, preciso de ajuda e não a tenho, preciso de ti e não sei se alguma vez terei…
É triste e ás vezes custa, não todos os dias, mas só ás vezes, quando as saudades não nos deixam dormir, quando não podemos deixar de pensar, de sentir, quando já não sei se sou eu ou se és tu, quando não te consigo mais ver, ás vezes custa…
Mas não custa tanto, como saber ou sentir, que estamos distantes, mesmo lado a lado, como se aquela barreira de aço fosse feita, ou um fosso sem fundo existisse entre nós, não sei que mais hei-de fazer, não sou capaz de voar por cima de tudo isso, cortam-me as asas, não saio do chão, perco-me num caminho que não existe, procurando a luz que teimas em não me dar.
Ás vezes custa, perceber que somos e ao mesmo tempo não, custa até compreender-te, porque me deixa mais de rastos, no chão, porque não querendo ser, sou, não querendo perceber, percebo, e não consigo negá-lo, queria ser teu mas tu não deixas, guardas esse teu mundo só para ti, não parece haver lugar para nós, quem sabe, talvez não tenha de ser…

20.06.05

Fragmento 25 - Um segredo...


Angel-of-Death

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A tua cor deixa-me doido, não me consigo afastar, o teu gosto o teu cheiro, coisas que devo renunciar. Mas não consigo, estas dentro de mim, certos ou errados, quem nos pode julgar culpados, por ceder à tentação.
Nenhum de nós jamais pediu tal sina, não fizemos de proposito, e nao sabemos lidar com o que se apodera de nós.
Não consigo, afasta de mim esse corpo, não me obrigues mais a desistir, pois sabes que sou fraco, sabes que não resisto ao teu carinho, nem tu consegues resistir.
Ainda não compreendo como fomos capazes, como somos, sem sentir remorsos, sem pedir licença, sem respeito por ninguém, o sentimento veio e tomou, nao mais saiu e cá ficou, talvez para minha desgraça e tua, mas a vida continua, e eu sem saber porquê.
Sempre que penso doi-me, sempre que esqueço nao consigo, o meu sono atormentado, nao me deixa mais dormir. Não vás, mas nao quero que fiques, nao sei mais o que fazer.
Sei que parte da culpa é minha, mas nao posso evitar, não quero estar contigo nem te quero afastar.
Parece que nesta minha cabeça, um sentimento entrou, quando ja la havia outro, complicou a minha vida, complica a minha vida, mas o problema é que não sei se quero que ele vá embora, não sei se o outro ja nao foi embora, nao sei o que fazer, nao sei como fazer para descobrir, sei que nao te quero ver partir, e nao te quero ver chegar, porque me doi.
Eu sei do teu segredo e esta seguro comigo, estaria seguro sim se tivesses um segredo, sei que nao o tens, mas eu sei que segredo é, e nao o vou contar. Se o teu segredo existisse seria igual ao meu, mas nao existe, porque o teu segredo sou eu.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

18.06.05

Fragmento 24 - Hoje pensei...


Angel-of-Death

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Hoje acordei, na certeza de não saber nada, não sei quem sou, não sei quem fui, não sei quem somos, quem quisemos ser.
Não sei sequer se existimos, se podemos existir, se a nossa propria existencia é uma verdade ou uma mentira.
Hoje, pensei, pensei em nós, não pensei em nada, pensei em tudo o que não me lembro agora. Pensei naquilo que podiamos ser, naquilo que nunca fomos, no que nunca houve, ou não quisemos ver.
Só pensei, pensei que podia pensar em ti, sem ter de recordar tudo, tudo o que nunca quis lembrar, nem esquecer, tudo o que um dia não fomos, nem quisemos ser, porque não havia espaço para nós dois.
Não cabemos os dois, onde cabe o mundo inteiro.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

15.06.05

Fragmento 23 - Um passar...


Angel-of-Death

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Envelhecer, certo, é certo que os anos passam por nós, a correr, por vezes, lentamente, quando o momento assim o exige, quando a alma nos comanda, qaundo nos guia.
A morte é inevitável, a única grande certeza da vida, tão grande como a própria vida, que nos dá liberdade para decidir, caminhar pelos nossos próprios passos, errar, erguer a cabeça, aprender e seguir em frente. Por vezes breve, quando a morte nos toma, o que a vida nos dá, ceifando tudo, indescriminadamente, deitando por terra todos os sonhos e esperançãs, a busca constante de uma vida melhor, saqueada, na derrota, da única guerra que a vida não pode vencer, pode lutar, como lutavam os índios, incessantemente contra o extremínio do seu povo, com garra, com vontade e imensa coragem, mas por muitas batalhas que vença, o final da guerra está já traçado, a morte acabará por vencer pelo cansaço, pela persistência, porque tempo não lhe falta. Por toda a eternidade irá conquistar, conquistar corações e mentes fracas, alguns até se entregam, sem motivo aparente, sem vontade de viver, sem vontade de aprender a vida, sem nunca procurarem a felicidade. Estúpidos. A vida é um dom, a maior riqueza que poderiamos receber, todos os sentidos, recebendo sensações a cada instante, agradáveis, ou não, são elas que nos fazem sentir vivos, felizes ou tristes, sempre vivos, e é essa a razão da nossa existência, viver, o mais que se puder, porque um dia o corpo morre, e só o espírito vive, vagueando pelos lugares que outrora podias tocar, as flores que podiamos cheirar, o amor que podiamos dar ou receber, a vida feliz que poderiamos ter...

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

15.06.05

Fragmento 22 - O meu final...


Angel-of-Death

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Um dia, tão igual aos outros, tão azul, tão sereno, cheio de luz, cheio do cantar dos pássaros, do rizo das crianças quem brincam, o choro daqueles que me vêm.
Como sempre estou no parque, adoro ver as crianças, adoro vê-las sorrir, tento recordar-me da criança que nunca fui, do adulto que nunca vou ser, deste estado de letargia, desta constante permanencia. Nunca me irei conformar, com o facto de que não posso envelhecer, a ideia parece incencebível, para alguém que está em contacto permanente com a humanidade, alguém que vive no meio deles, que se parece com eles, mas que só alguns vêm e só por momentos, breves, sempre muito breves.
Sou um anjo, o unico anjo que vive na terra, o unico que tem como obrigação falar com os mortais, mas só na hora das sua morte, os ultimos minutos, eu roubo o ultimo sopro de vida dos seus corpos moribundos e levo as suas almas, para o além, paraíso, inferno, purgatorio, quem sabe, quem acredita...
E imaginando, depois de tantos anos fazendo o mesmo serviço, fica-se no minimo curioso, em relação à vida terrena, ela fascinava-me, queria vê-la de mais perto, senti-la correr nas minhas veias, quebrar todas as leis e tornar-me mortal, mas, tinha de aproveitar um momento de distracção, teria de apoderar-me de um corpo sem que niguém percebesse. Assim foi, a minha proxima vitima tornou-se uma parte de mim e até hoje nao mais deixei este corpo.
Quando o tomei era ainda uma criança, não merecia deixar a vida tão cedo, assim restituí.lha, dei-lhe de novo o sopro da vida que era meu dever roubar, e com ela, o meu espírito.
Não mais tive de entrar na vida de ninguém e dizer, " quando a morte bate a porta, há que deixá-la entrar, é hora de deixar este mundo, deixar um corpo que já não nos serve, e seguir em frente".
Queria ver este meu novo corpo crescer, ser feliz, talvez um dia sentir o amor, absorver todas estas sensações novas, e como era bom poder sentir-me vivo, poder sentir o calor do sol, a chuva no meu rosto, o vento nos cabelos, quantos anos tinha eu passado a roubar todas estas coisas, sem saber o que realmente perdia. A alegria de poder crescer, de poder sentir, de poder viver. Iria por fim envelhecer, junto com este meu novo corpo, como um mortal.
Então senti, senti um leve frio escorrendo pelo meu pescoço, húmido, e cada vez mais intenço. Fui abrindo os olhos e a chuva caía sobre o parque, os baloiços vazios, o eco do riso das crianças que nao estavam lá mais, o meu despertar frio e molhado, naquele banco de jardim, tentei levantar-me, mas as minhas roupas pesadas da água eram demais para mim. Depois de 80 anos e uma vida cheia de vigor, nem conseguia levantar-me de um banco de jardim.
Deixei-me ficar mais uns momentos, tentando recuperar forças para me levantar ,fui fechando os olhos devagar , e por uns momentos, consegui vê-lo, não ouvi o que me disse, mas nunca mais abri os olhos...

By: Angel-of-Death
In: #O espelho e eu"

13.06.05

Fragmento 21 - Vida


Angel-of-Death

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Ás vezes penso, não muitas vezes, mas ás vezes. Penso se não estarei aqui a mais, interrogo-me sobre a minha existência, o meu propósito aqui neste mundo.
Sou sonhador, optimista, bem disposto, realista, sou como o mundo me fez, como me criaram, um cristão ateu, sem credo definido, pensamento livre sem abrigo, sem grades para me prender, sem cordas para me amarrar, voa livre e sem destino, este pensamento meu.
Mas por vezes, dou comigo triste, sem razão aparente, sem motivo que o valha, uma tristeza latente, quando a alegria me falha, nem o dia de sol quente, mar azul, fantasia, me traz de volta, da minha melancolia.
E fico, a ver quebrar, onda após onda, maré que sobe e toma a praia para si, ondas de espuma que se misturam na areia, as pequeninas bolhinhas de ar, que se formam quando a água é devolvida ao mar e deixam para tras uma praia perfurada e borbulhante. Já ninguem repara nessas coisas, tão naturais, que nao as apreciamos, nem agradecemos o privilégio de as poder contemplar, e já ninguém liga.
Acho que nem mesmo eu, apesar de perder muito tempo a observar pequenas coisas. Mas e perder porquê? Porque falo eu em perda de tempo?A procura do saber não é nunca perda de tempo, a busca da razão das coisas, é tudo o que nos resta, neste constante tentar, esta busca insessante de uma vida cheia, porque pior do que não viver, é morrer na estupidez da ignorancia.
Mas quantos assim perecem, sem nunca o saberem, qual é afinal a definicão de conhecimento, quem me explica, o que é para uns, nao diz nada a outros, e por vezes nao diz nada a ninguém. Somos pobres, muitos de nós, pobres de espirito, pobres de saber, mas porque assim o quisemos, só nao aprende quem assim o deseja, o conhecimento mais importante é gratuíto, a vida.

By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

08.06.05

Fragmento 20 - Final de tarde


Angel-of-Death

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Enquanto o sol se põe, e vai levando embora, devagarinho, o resto do dia, penso em tudo aquilo que fica para trás.
Os risos ecoam ainda nos meus ouvidos, a fadiga de mais um dia de trabalho, deixa de me pesar nos ombros e vai, vai para longe.
O sol vermelho e bem grande, mergulha nas águas claras do oceano, o barulho das ondas quebrando na areia, embala os meus sentidos, o meu corpo deixa levar-se pelo som calmo do fim da tarde, pelas cores alaranjadas que pintam tudoem meu redor.
Como num quadro, numa fotografia, tento captar cada pormenor, cada minuto deste final.
Nem noite nem dia, o momento perfeito da morte de um, e nascimento de outro, a união única e especial, que podemos agarrar todos os dias das nossas vidas, mas que muitas vezes não nos damos a esse trabalho, quase ninguém pára para apreciar as coisas belas da vida.
Sinto-me só, num momento em que deveria ter o mundo inteiro comigo, parece que só eu vejo esta paisagem linda, que se repete vezes sem fim. Existia antes de mim e existirá depois, que a minha noite se levantar.

By: Angel-of-Death
In: " O Espelho e eu"

19.05.05

Fragmento 19 - Caminho


Angel-of-Death

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Por vezes a vida parece passar-me ao lado, mas quando páro para pensar nisso, vejo que não, é o mundo, o mundo é que muitas vezes passa por mim sem eu dar conta, passa e pára, como numa paragem de autocarro, mas eu não subo, prefiro viver no meu proprio mundo e não no de todos, ou da grande maioria, fujo da confusão, do barulho, do stress que nos consome dia após dia, até nos levar a loucura, ou à perda de vontade própria, em qualquer dos casos, rouba-nos a nossa identidade, passamos a ser só mais um, no meio de milhões, mais um autómato, mais um que deixará de pensar e começará a fazer tudo por reflexo, por hábito e não por vontade própria.
Loucura que nos rouba a alma, que nos deixa ocos, sem sentimentos até, ou com sentimentos programados, que não são os nossos, mas que nos são incutidos pela sociedade decadente e hostil em que vivemos, que nos ensina a odiar, a amar e sei lá mais o quê, mas pelas razões erradas, sem instinto, sem verdade no sentir, só agarrados a ideais idiotas, pensados por pessoas ainda mais estupidas do que aqueles que os seguem, parecendo um rebanho de carneirinhos, atrás do pastor, que sem saberem é o lobo mau disfarçado.
Porque lutamos tanto pela liberdade de pensar, de falar, de agir, se nos singimos só a uma ideia, um pensamento, as mesma palavras, os mesmos gestos, a mesma raiva de nós mesmos, raiva da estupidez de sermos animais racionais e sem razão nenhuma, tão ignorantes e estupidos que não conseguimos pensar sozinhos, só com a maioria, pela maioria, a máxima democrática, que mesmo não sendo usada em todos os países do mundo, vive em todas as mentes, todos seguem as massas, seguem até ao fim, sem olhar para trás, nem mesmo quando perto do precipicio, sempre tomando a direcção politicamente correcta, sem pensar, sem pesar, sem alma, com a consciência tranquila de quem tem somente ar na cabeça e por isso não pode ter consciencia, nem tomar responsabilidade pelos proprios actos.
Mas como em tudo, alguns escolhem ser assim por ser mais cómodo, mais confortável não ter de pensar, de agir, e depois ter de sentir remorsos ou culpas, assim escolhem culpar a sociedade. Outros simplesmente não têm inteligencia suficiente para escolher e mal nascem, são devorados pelas massas e recrutados de imediato para o exercito dos vegetais, não mais saindo de lá. Mas há os que escolhem não apanhar o autocarro, decidem que há mais a ser feito do que so vegetar, seguir exemplos em vez de os criar, pensar, usar a nossa liberdade para de facto exercer uma escolha, uma escolha de vida, de alegria, de tristeza, mas em que todos os caminhos nos sao mostrados pelo destino e seguimos aqueles que entendermos, por nossa vontade, certa ou errada a escolha é nossa, sem interferencia da sociedade em que vivemos, sem influencia que não seja unicamente vinda da nossa vontade, mesmo que muitas vezes a nossa loucura seja criticada, perseguida, incompreendida, ás vezes até banida. Banida por loucos, ainda mais loucos do que eu, ou do que quem escolhe ser como eu.
Mas cada um tem o direito de escolher, e como diz a expressao, já não sei se inglesa ou americana, “everybody is a critic”, toda a gente é um critico, ou seja, toda a gente tem algo a dizer sobre o nosso comportamento, mesmo que não o digam, pensam, e calam-se, o que é bem pior, roem por dentro de raiva, por não terem a coragem de falar frente a frente, conspiram, dizem mal pelas costas, invejosos, vingativos, por motivos que só eles conhecem, frios, calculistas, pessoas mesquinhas que mais não têm da vida, do que o prazer de falar dos outros, com ou sem motivo, disfarçadamente ou não, levam as suas vidas em redor dessa vergonha de si proprios, dessa vontade de falar mal, porque no fundo, muitos queriam ser eu, muitos têm inveja de não terem coragem de admitir que sao diferentes, que pensam diferente, não conseguem fazer frente aos preconceitos, aos rótulos, mas a culpa é inteiramente deles, não é preciso coragem, só contade de viver, e se viver implica quebrar barreiras morais ou ir contra conceitos pré-definidos, que assim seja...

By:Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"

02.05.05

Fragmento 18 - Quem é?...


Angel-of-Death

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Vozes do passado ecoam na minha memória, espíritos, seres que já não existem, ou pelo menos não como eu os recordo, deformados pela vida, pelos sentimentos, pela paixão, alguns até deformados pelos meus actos impensados, pela minha despreocupação, pelo meu amor pela vida, porque claro, cada um ama à sua maneira e é essa individualidade que nos faz ser tão iguais e tão diferentes, iguias nos sentimentos gerados, diferentes na maneira de os sentir.
Mas eles perseguem-me, como uma maldição, que não me larga onde quer que vá, atormentando os meus sonhos, os meus pensamentos e os meus actos, como que lembrando-me que não devo voltar a errar.
São tantas as coisas que me passam pela cabeça, longos dias, quase intermináveis, sem fim, pensamentos que teimo em não ouvir, vozes que que teimo em não pensar, mas tudo recomeça e acaba num ciclo vicioso, num vai e vem de sensações contraditorias, de palavras a mais que nunca foram ditas.
Correntes param à minha passagem, mares de gentes, vegetando no prado da vida, sem rumo, sem sorte, sem vontade de ser mais, de realmente ser alguém, de viver, de pensar, percorrem esse prado sem destino, ou com ele já traçado, não são mais do que espectadores, dentro do seu proprio filme, cegos entre jogadoes surdos e mudos,que simplesmente os ignoram porque não os podem entender, passam ao lado da vida sem nunca dar por ela, decidem não perder tempo com a vida, sobreviver à espera do derradeiro final, e se um dia, numa possível vida espiritual, lhes perguntarem como foi a passagem pela terra, não irão saber o que responder, nem que terra era essa.
Abomino essa forma de pensar, mas compreendo porém, que é direito de cada um, tomar o seu caminho, escolher a sua sorte, só não suporto quando se queixam, quando acham que a vida não lhes foi propícia, e não se lembram que a escolha foi inteiramente deles.
Quem podem culpar, Deus? Qual Deus?...


By: Angel-of-Death
In: "O espelho e eu"